O projeto Shapeshifters propõe-se explorar, através das artes visuais contemporâneas, o tema da metamorfose nas suas dimensões estética, antropológica e filosófica. Partindo da porosidade das fronteiras entre os reinos mineral, animal, humano e vegetal, o projeto convoca um conjunto de artistas de diversas origens culturais cujas obras abordam a transformação — seja através do corpo, seja através de universos imaginárias que interrogam a relação entre formas, espécies e identidades.

A apresentação do projeto em dois espaços distintos e complementares — a Galeria do Pavilhão 31, em parceria com a Carpe Diem Arte e Pesquisa, e a UCCLA — União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa — reflete uma ambição programática pouco comum no panorama das associações culturais independentes: a de construir um diálogo expositivo entre dois equipamentos culturais de referência em Lisboa, com obras e perspetivas curatoriais que se completam sem se repetirem. A curadoria é da responsabilidade de Katherine Sirois, com co-curadoria de Ricardo Barbosa Vicente na exposição na UCCLA.

O projeto ancora-se numa reflexão mais ampla sobre a metamorfose enquanto força psíquica e cultural com raízes profundas na história da humanidade — das mitologias indiana, egípcia e grega às cerimónias dos povos nativos americanos, aborígenes e africanos; das narrativas do Antigo e Novo Testamentos às lendas, contos populares e ficções contemporâneas. A mutabilidade física, a hibridez e a multiplicidade são constantes transversais às culturas e espiritualidades humanas, e é a partir dessa genealogia vasta que o projeto se situa. Neste enquadramento, a própria prática artística é entendida como um ato metamórfico: os processos de pintar, esculpir, fundir, construir, coser, dobrar, queimar ou reciclar reformam e permutam a matéria, abrindo-a a infinitas possibilidades de formas e aparências.

Shapeshifters afirma-se, assim, como um projeto de alcance simultaneamente artístico, cultural e cívico, que aposta na diversidade de origens dos artistas participantes, na articulação entre espaços e públicos distintos, e na capacidade da arte contemporânea para propor novas configurações do olhar sobre o corpo, a identidade e o mundo natural.

*com base no texto curatorial da exposição, por Katherine Sirois.

Continuidade: de Camouflage a Shapeshifters

Shapeshifters não nasce no vazio. É, em parte, o prolongamento de uma interrogação iniciada com o projeto Camouflage (2025) — também concebido por Katherine Sirois e produzido pela P28 — que explorou as dinâmicas de perceção visual e as estratégias de ocultação, disfarce e dissolução nas artes contemporâneas. Se emCamouflage o gesto central era o de «tornar-se invisível» — fundir-se com o ambiente, subverter o olhar alheio, habitar o espaço intersticial entre o visível e o invisível —, em Shapeshifters esse impulso aprofunda-se e transforma-se: já não se trata de desaparecer, mas de mudar de forma, de transitar entre estados, espécies e identidades.

Há uma continuidade conceptual entre os dois projetos: ambos partem de uma suspeição em relação à fixidez — das formas, dos corpos, das identidades. Em Camouflage, essa suspeição manifestava-se através do padrão, da textura, da mimetização com o entorno. Em Shapeshifters, manifesta-se através da metamorfose, «da porosidade das fronteiras entre o humano, o animal, o vegetal e o mineral». A camuflagem implica uma relação estratégica com o olhar do outro; a metamorfose implica uma transformação mais radical e interior — não apenas parecer diferente, mas tornar-se outro.

Neste sentido, os dois projetos formam um díptico coerente em torno de uma questão comum: o que significa habitar uma forma? E o que acontece quando essa forma se recusa a ser permanente?

A P28 é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto/ Direção-Geral das Artes, no âmbito do Programa de Apoio Sustentado às Artes, Biénio 2025-26.