O rosto é, por tradição, superfície de identificação. É nele que se projetam nome, género, pertença, biografia. Mas é também lugar de desvio e de conflito. Em ID, o retrato deixa de funcionar como garantia de estabilidade para se afirmar como campo problemático — território onde o visível e o invisível se entrecruzam.
Reunindo obras de artistas consagrados e de criadores anónimos — com e sem diagnóstico psiquiátrico — Gonçalo Pena, Hélder Rodrigues, José Luís Neto, Martinha Maia, Micaela Fikoff, Pedro Cabrita Reis, Stella Kaus e Tiago Severino, a exposição ID toma a representação do rosto como ponto de partida para uma reflexão sobre identidade, alteridade e reconhecimento.
Convocando o território simbólico do que Sigmund Freud designou por “id” — instância pulsional e primitiva da psique humana —, o projeto não pretende ilustrar um conceito psicanalítico, mas utilizá-lo como metáfora crítica. O “id” surge aqui como aquilo que antecede a norma e a classificação; como dimensão do sujeito que escapa à fixação identitária e à leitura unívoca.
A exposição parte de representações de rostos produzidas por e sobre pessoas institucionalizadas em contextos psiquiátricos, interrogando as fronteiras entre identidade pessoal, olhar clínico e criação artística. Que diferença existe entre retratar e diagnosticar? Entre representar e classificar? Entre reconhecer e rotular?
Ao colocar em diálogo artistas reconhecidos no campo da arte contemporânea com criadores cuja prática emerge em contextos de institucionalização, ID desmonta hierarquias e questiona categorias de legitimação. A coexistência destas obras no mesmo espaço não procura diluir diferenças, mas expor tensões: entre centro e margem, visibilidade e invisibilidade, reconhecimento artístico e anonimato.
A seleção integra obras previamente existentes e trabalhos desenvolvidos especificamente para o projeto, revelando práticas que oscilam entre testemunho íntimo e fabulação simbólica. Em algumas peças, o rosto aproxima-se do registo autobiográfico; noutras, fragmenta-se, distorce-se ou dissolve-se. Em todas, afasta-se da função de prova identitária para se afirmar como superfície instável, onde a imagem resiste à classificação e onde a identidade se revela como processo.
ID entende o eu não como essência fixa, mas como construção relacional. Aquilo que nos define não reside apenas nos traços que nos distinguem, mas na forma como nos constituímos na relação com o outro. A alteridade não surge como ameaça, mas como condição de possibilidade do próprio sujeito.
Enquanto galeria de projeto, a P28 afirma este espaço como território de investigação crítica sobre os dispositivos da imagem e os regimes de visibilidade. Neste contexto, ID inscreve-se na continuidade de um trabalho que cruza criação artística contemporânea e experiência da doença mental, contribuindo para a desestigmatização através da prática artística e da exposição pública.
Mais do que oferecer respostas, a exposição propõe um exercício coletivo: repensar o rosto não como evidência, mas como construção; não como espelho transparente do eu, mas como matéria plural, atravessada por forças sociais, políticas e psíquicas.
𝘈 𝘗𝟤𝟪 𝘦́ 𝘶𝘮𝘢 𝘦𝘴𝘵𝘳𝘶𝘵𝘶𝘳𝘢 𝘧𝘪𝘯𝘢𝘯𝘤𝘪𝘢𝘥𝘢 𝘱𝘦𝘭𝘢 𝘙𝘦𝘱𝘶́𝘣𝘭𝘪𝘤𝘢 𝘗𝘰𝘳𝘵𝘶𝘨𝘶𝘦𝘴𝘢 – 𝘊𝘶𝘭𝘵𝘶𝘳𝘢, 𝘑𝘶𝘷𝘦𝘯𝘵𝘶𝘥𝘦 𝘦 𝘋𝘦𝘴𝘱𝘰𝘳𝘵𝘰 / 𝘋𝘪𝘳𝘦𝘤̧𝘢̃𝘰-𝘎𝘦𝘳𝘢𝘭 𝘥𝘢𝘴 𝘈𝘳𝘵𝘦𝘴, 𝘯𝘰 𝘢̂𝘮𝘣𝘪𝘵𝘰 𝘥𝘰 𝘗𝘳𝘰𝘨𝘳𝘢𝘮𝘢 𝘥𝘦 𝘈𝘱𝘰𝘪𝘰 𝘚𝘶𝘴𝘵𝘦𝘯𝘵𝘢𝘥𝘰 𝘢̀𝘴 𝘈𝘳𝘵𝘦𝘴.